segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Peripatético

 

Post (0085)

Numa das empresas em que trabalhei, eu fazia parte de um grupo de treinadores. Éramos coordenados pelo chefe de treinamento, o professor Carlos, e tínhamos até um lema: “Para poder ensinar, antes é preciso aprender” (copiado, se bem me recordo, de uma literatura do Senai). Um dia, nos reunimos para discutir a melhor forma de ministrar um curso para cerca de 200 funcionários. Estava claro que o método convencional – Botar todo mundo numa sala – Não iria funcionar, já que o professor insistia na necessidade da interação, impraticável com um público daquele tamanho.

Como sempre acontece nessas reuniões, a imaginação voou longe do objetivo, até que, lá pelas tantas, uma colega propôs usarmos um trecho do Sermão da Montanha como tema do evento. E o professor, que até ali estava meio quieto, respondeu de primeira. Aliás, pensou alto:

– Jesus era peripatético.

Seguiu-se uma constrangida troca de olhares, mas, antes que o hiato pudesse ser quebrado por alguém com coragem para retrucar a afronta, dona Dirce, a secretária, interrompeu a reunião para dizer que o gerente de RH precisava falar urgentemente com o professor. E lá se foi ele, deixando a sala à vontade para conspirar.

– Não sei vocês, mas eu achei esse comentário de extremo mau gosto – Disse a Laura.

– Eu nem diria de mau gosto, eu diria ofensivo mesmo – Emendou o Jorge, para acrescentar que estava chocado.

– Talvez o professor não queira misturar religião com treinamento – Ponderou o Sales, que era o mais ponderado de todos. – Mas eu até vejo uma razão para isso. É  óbvio que ele é ateu.

– Não diga!

– Digo. Quer dizer, é um direito dele. Mas daí a desrespeitar a religiosidade alheia.

Cheios de fúria, malhamos o professor durante uns dez minutos e, quando já o estávamos sentenciando à fogueira eterna, ele retornou. Mas nem percebeu a hostilidade. Já entrou falando:

– Então, como ia dizendo, podíamos montar várias salas separadas e colocar umas 20 pessoas em cada uma. É verdade que cada treinador teria de repetir a mesma apresentação várias vezes, mas. – Por que vocês estão me olhando desse jeito?

– Bom, falando em nome do grupo, professor, essa coisa aí de peripatético, veja bem.

– Certo! Foi daí que me veio a ideia. Jesus se locomovia para fazer pregações, como os filósofos também faziam, ao orientar seus discípulos. Portanto a sugestão de usar o Sermão da Montanha foi muito feliz.

– Peripatético quer dizer “o que ensina caminhando”.

E nós ali, encolhidos de vergonha.

Bastaria um de nós ter tido a humildade de confessar que desconhecia a palavra que o resto concordaria e tudo se resolveria com uma simples ida ao dicionário.

– Isto é, para poder ensinar, antes é preciso aprender. Finalmente, aprendemos. Duas coisas.

– A primeira é que o fato de todos estarmos de acordo não transforma o falso em verdadeiro.

– E a segunda é que a sabedoria tende a provocar discórdia, mas a ignorância é quase sempre unânime.

Artigo escrito por Max Gehringer publicados na Revista VOCÊ S/A – NG Canela – Agosto 2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O poder da burrice

 

Post (084)

“Duas coisas são infinitas: o universo e a burrice humana. Mas a respeito do universo ainda tenho dúvidas”, disse Albert Einstein. Componente inalienável da natureza humana, a burrice é, provavelmente, a força mais perigosa do cosmos.

– O que significa burrice?
– Uma definição convincente foi dada pelo historiador e economista italiano Carlo Cipolla: “Uma pessoa burra é aquela que causa algum dano à outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando.”
– Até mesmo os mais inteligentes tendem a desvalorizar os riscos inerentes à burrice. E ela é mais perigosa que a crueldade: esta, tendo uma lógica compreensível, pode pelo menos ser prevista e enfrentada.
– A burrice sempre ofereceu cenas e personagens cômicos, como no conto de Andersen “A roupa nova do imperador”, no qual dois alfaiates mal-intencionados convencem o rei a vestir uma roupa maravilhosa, invisível para as pessoas contradizer o soberano afirmando não ver a roupa (que de fato não existia). Só um menino teve a coragem de dizer que o rei estava nu, revelando a trapaça. Mas, atenção: rir da burrice pode deixá-la “simpática” e, portanto, desvalorizada. Se na ficção o estúpido é facilmente reconhecido, na vida real as coisas são diferentes.
– A burrice tem três características fundamentais:
1 – Ela é inconsciente e repetitiva: o burro não sabe que é burro e tende a repetir várias vezes o mesmo erro. Tais características contribuem para dar mais força e eficácia à ação devastadora da burrice. A pessoa estúpida não reconhece os próprios limites, fica fossilizada em suas convicções particulares e não sabe mudar. “Por isso, no âmbito clínico, a burrice é a pior doença, por ser incurável”.
2 – A burrice é contagiosa: as multidões são muito mais estúpidas que as pessoas que as compõem. Isso explica por que populações inteiras (como aconteceu na Alemanha nazista ou na Itália fascista) podem ser facilmente condicionadas a perseguir objetivos insanos.
3 – Além da coletividade, há um outro fator que amplifica a burrice: estar numa posição de comando. “O poder emburrece”. Por quê? Quando estão no poder, as pessoas muitas vezes são induzidas a pensar que, justamente por ocuparem aquele posto, são melhores, mais capazes, mais inteligentes e mais sábias que o resto da humanidade. Além disso, estão cercadas de aduladores, seguidores e aproveitadores que reforçam o tempo todo essa ilusão. Dessa forma, quem está no comando chega a cometer as mais graves faltas com a aprovação geral.

– Em cada um de nós há um fator de burrice que é sempre maior do que imaginamos. Isso não é, necessariamente, um problema. Ao contrário, a estupidez tem uma função evolutiva: serve para nos fazer agir precipitadamente, sem pensar muito, o que em certos casos se revela mais útil do que não fazer nada. A burrice nos permite errar, e na experiência do erro há sempre um progresso do conhecimento. Assim, o ponto-chave para anular a burrice está em reconhecer os próprios erros e se corrigir.

– Todos nós estamos prontos a admitir que sejam um pouco loucos, mas burros, jamais.

– E a capacidade de admitir nossos erros de avaliação? – Quase inexistente: estamos atados as nossas convicções como se elas fossem coletes salva-vidas. O que pedimos ao mundo não são novos desafios a nossas ideologias políticas e sociais. Preferimos amigos, livros e jornais que compartilham e confirmam nossos iluminados valores. Mas, cercando-nos de pessoas oportunistas, reduzimos a chance de que nossas opiniões sejam questionadas.
– Também nos vários setores da pesquisa, a burrice se apresenta pontualmente: os envolvidos tendem a considerar um estudo sério e convincente quando os resultados coincidem com seu ponto de vista; ou julgam-no ultrapassado e cheio de defeitos quando vão de encontro a suas expectativas.
– Há pessoas que chegam incrivelmente perto da verdade sobre si mesmas. Elas têm uma percepção equilibrada, são imparciais quando se trata de atribuir responsabilidades de sucessos e fracassos e fazem previsões realistas para o futuro.

– É claro que ser realistas e ao mesmo tempo serenos e otimistas seria o ideal; mas não há dúvida de que às vezes um pouco de burrice faz bem.

Publicado na Revista PLANETA edição 432 – NG Canela – Agosto 2010

Gráficos hilários II

 

Contribuição do amigo BH – Post (0083)
NG Canela – Agosto 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tire as meias

 

2Post (0082)

Você por acaso já parou para pensar se tem algo em sua vida que lhe ajude a desligar de forma simples?

É fácil ser Zen deitado ao pé de um coqueiro à beira-mar. Mas como fazer isso numa vida que demanda tanto de nós, tanto pessoal quanto profissionalmente?

Recentemente convidei um grande amigo e empresário para passar um final de semana conosco aqui na Bahia. Logo que chegou, a primeira coisa que fez foi ficar descalço.

Antes que eu lhe que perguntasse o porquê da rapidez em tirar os sapatos, ele me olhou e disse: “Amigo, para poder tirar as meias, pois quando as tiro, entro em ‘modo descansar’”.

Sei que pode parecer engraçado, mas esse meu amigo, sem saber, sabiamente encontrou um atalho para estar Zen onde quer que esteja.

Um dos grandes desafios neste mundo conectado, reativo e intensivo é conseguir, de forma prática, “desligar-se do mundo”.

Você por acaso já parou para pensar se tem algo em sua vida que lhe ajude a desligar de forma simples?

Conheci um senhor há alguns anos que, logo ao chegar em casa, tomava uma dose de whisky . É claro que isso deve funcionar também, mas não é disso que estou falando.

Também não estou falando de meditação, que é uma ótima forma de silenciar a mente, mas de algo simples que possa lhe trazer em contato consigo mesmo.

Pode ser uma canção, uma imagem, uma oração ou até tirar suas meias. Se pensar com calma, encontrará algo.

Durante o Caminho de Santiago, descobri várias formas de treinar minha mente e minhas emoções para que soubessem quando podiam entrar em “modo descansar”.

No começo, como todo exercício, dá um pouco de trabalho. É preciso ter disciplina e dedicar-se, confiando que o benefício será a paz duradoura.

A verdadeira paz se encontra ao desconectar do mundo exterior e conectar consigo mesmo. E, às vezes, isso é tão simples quanto tirar as meias.

Texto de Pierre Schürmann.3
Filho mais velho da primeira família brasileira a dar uma volta ao mundo de veleiro, é amante da vida simples.

NG Canela – Agosto 2010

domingo, 1 de agosto de 2010

Coisas do tio Boris

 

Post (0081)

– Depois de muito batalhar e graças às novas leis da ex-União Soviética, o tio Boris (Judeu) conseguiu permissão para emigrar para Israel, como muitos outros camaradas russos.
– Porém, ele se queixava:
– Discriminavam-me, não queriam que eu saísse, me investigavam tempo todo… , e eu sou uma boa pessoa.
– Por fim, se deram conta e concordaram com a sua saída.
– No dia da partida, na alfândega, um oficial russo ao revistar as suas bagagens de repente, abre uma delas e pergunta:
– Que é isto?
– Perdão – disse Boris – você deve perguntar: “- Quem é este?”. – Este é um busto do camarada Stalin, nosso querido ideólogo e grande dirigente do partido. E eu o levo para nunca me esquecer dele.
– É verdade – disse o guarda – ele pensava diferente dos judeus, porém o felicito… Passe!
– Tio Boris chega a Tel Aviv e quando é revistado na alfândega, o oficial israelense abre sua bagagem e lhe pergunta:
– Que é isto?
– Perdão – disse Boris – você deve perguntar: “Quem é este”’. – Este é o maldito ditador anti-semita Stalin por quem sofremos tantas desgraças e misérias. Trago este busto para não esquecer de seu rosto e ensinar aos jovens quem nos fez sofrer dia após dia!
– Bom, senhor, acalme-se – disse o guarda – Você já está aqui, em Israel, pode passar… – Passe, passe que sua família o espera!
– E tio Boris é recebido com grande alegria por seus irmãos, sobrinhos e toda a família. Vão todos ao kibutz, onde haviam preparado uma grande festa para recebê-lo. Quando chegaram a casa, lhe disse um sobrinho:
-Tio, venha ver primeiro os seus aposentos, deixar suas coisas e se refrescar.
– E logo o acompanham ao seu quarto e o ajudam com suas coisas.
– E, quando Boris abre a mala e coloca o busto sobre sua cama, o sobrinho pergunta:
Quem é esse?
-Desculpa, – disse Boris – deves perguntar: “Que é isso”’.– Isso, querido sobrinho, são cinco quilos de ouro puro.
Texto recebido de um velho amigo – NG Canela – Agosto 2010